Cães com donos, mas que passam o dia soltos matam muitos animais silvestres no Brasil

“O impacto global de cães domésticos na vida selvagem é muito subestimado”, diz trabalho realizado na Austrália e publicado em 2017 na revista Biological Conservation. Os pesquisadores acusam cachorros de terem levado à extinção 11 espécies australianas. Isso significa que o cão é o terceiro mamífero mais destrutivo da natureza, atrás apenas dos gatos e roedores.

Os cães se unem em matilhas de até 15 indivíduos e caçam iguanas, pombos, macacos, cágados e até pinguins. Eles ativam câmeras com sensor de movimento em dezenas de reservas e parques nacionais no Brasil, e levaram a pesquisadora Ana Maria Paschoal, da Universidade Federal de Minas Gerais, a tentar descobrir de onde vinham tantos cachorros que circulavam na Mata Atlântica.

A conclusão da pesquisa publicada em 2012 na revista Mammalia foi chocante: muitos dos cachorros nem sequer eram de rua ou sem donos, e sim cães que viviam em casas próximas às reservas e que passavam o dia soltos.

“Todos os cachorros detectados tinham um dono ou uma pessoa com a qual o animal tinha uma ligação”, afirmou ela em entrevista ao The Washington Post. Quanto mais populações humanas havia no entorno da floresta, mais cães transitavam e caçavam por ali. Cachorros eram os mamíferos que mais ativavam as câmeras com sensores.

Espécies ameaçadas

Os cães causam impactos nas populações silvestres por conta da predação, da competição e da introdução de doenças como cinomose, parvovírus, raiva, leishmaniose e dirofilariose. Em 2008 a cinomose foi identificada em nove onças no Parque Estadual Ivinhema, em São Paulo.

Entre os animais brasileiros ameaçados, foram citados rã-pimenta, curiango, gambá-de-orelhas-pretas, cuíca-de-quatro-olhos, várias espécies de tatu e tamanduá, macaco-prego, bugio, lobo-guará, cachorro-do-mato, raposa-do-campo, jaguatirica, onça-pintada, onça-parda, quati, anta, veado-catingueiro, queixada, cutia, preá, paca, entre outros.  

Donos surpresos

Fernando Fernandez, professor de ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro relatou problema semelhante ao observado por Paschoal. Ao reintroduzir animais nativos à floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, eles logo eram atacados por cachorros. As cutias eram muito atacadas pelos cães, que nem as consumiam. Eles as matavam por diversão.

Fernandez e a equipe dele instalaram câmeras e identificaram mais de 100 cães no Parque Nacional da Tijuca, e descobriram que eles moravam em comunidades nas redondezas da floresta. “Essas são pessoas que não têm dinheiro para construir muros. Quando os donos saem para trabalhar, os cães também saem e só voltam quando os donos retornam do trabalho”, explica ele.

Frequentemente, os donos não têm a mínima ideia do que seus amigos caninos fazem durante o dia. Quando Fernandez contava a eles que seus cães matavam animais silvestres na floresta com regularidade, eles ficavam surpresos.

O que fazer?

Esse problema é de difícil solução, já que estima-se que existam 52 milhões de cachorros no Brasil. Conforme mais e mais populações humanas cercam áreas de proteção ambiental, mais cães domésticos são introduzidos nesses ambientes, impactando negativamente as espécies silvestres.

Uma solução proposta por um estudo da Universidade de Brasília de 2016 é: (a) identificar vias de acesso da espécie invasora, nesse caso o cão; (b) estabelecer detecção precoce e sistema de resposta rápida; (c) aplicar medidas de contenção quando a erradicação não é mais possível mas quando a invasão é restrita; (d) manter trabalho de controle se a prevenção e  detecção precoce não são mais possíveis. Para fazer a contenção, é necessário o bloqueio físico dos limites da área protegida, enquanto a erradicação é a remoção ou eliminação de espécies invasoras.

Também é preciso utilizar estratégias de educação da população que vive próxima aos parques. Idealmente, seria importante registrar todos os cães que vivem nas redondezas com fotografias e planilhas. Assim, caso o cão seja encontrado na área protegida, o dono poderia ser responsabilizado. A castração também é crucial para reduzir populações caninas e evitar animais de rua.  [Washington PostCães domésticos em áreas protegidas]

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